Coisas de mulher: parto e dor

Coisas de mulher: parto e dor

Marlene Neves Strey

Inúmeras vezes, quando as mulheres se reúnem em casa, numa festinha, ou algum outro evento social, um assunto recorrente é a dor do parto: quem sofreu mais, quem demorou mais até o bebê nascer. O nascimento de uma criança é um fato muito importante na vida. Mesmo aquelas que não querem ser mães se interessam pelo assunto, dado que é algo exclusivo das mulheres. E a famosa dor do parto é o primeiro quesito a ser lembrado.

As mulheres aprendem desde cedo que a sua função principal na vida é ser mãe e que, para atingir esse objetivo, tem que passar por uma gravidez e pelo parto. As meninas escutam de suas mães, tias, avós suas histórias de sofrimento no parto. Já ficam sabendo que terão que sofrer para parir. E não só essas mulheres ensinam isso, a bíblia, os ditados populares, a mídia, são instrumentos pedagógicos para convencerem que parto é sinônimo de dor. A própria medicina costuma divulgar isso.
É interessante notar que essa dor é naturalmente associada ao parto natural, ou seja, aquele que acontece sem intervenções cirúrgicas, como no caso das cesarianas, ou sem a utilização de anestésicos. Também existe a possibilidade do “parto sem dor”, ou seja, o uso de métodos psicoprofiláticos, técnicas orientadas por profissionais a fim de garantir que o parto aconteça sem dor. Muitas estudiosas do assunto consideram que essas técnicas são uma forma de manipulação das mulheres como as outras intervenções médicas. Ângela Villachan Lyra e Pompéia Villachan-Lyra, por exemplo, garantem que as mulheres poderiam ter partos sem dor, sem uso de drogas, se não tivessem medo de parir seus/suas filhos/filhas.
Segundo essas pesquisadoras, embora estejamos no século XXI, a representação do parto por parte das mulheres é ainda intimamente associada à dor. É um mito difícil de desmantelar. Principalmente porque não existem movimentos no sentido de evitar o condicionamento das mulheres nesse aspecto. Estão sempre aparecendo filmes e novelas com cenas dramáticas de mulheres parindo com enorme dor. Parece que, quanto maior a dor e o sofrimento, mais válido é o nascimento. As autoras não aceitam essa perpetuação da imagem da mulher como Mater Dolorosa.
Ao longo de meu trabalho com mulheres, já escutei de tudo, desde aquelas que deram à luz quase dormindo, não sentindo dor alguma, até aquelas que ficaram demasiadas horas sofrendo e sofrendo. Muitas, com medo da dor, ao saberem que estão grávidas, já pensam, imediatamente que farão cesariana. É legítimo não querer sentir dor. No entanto, será que esse medo não está sendo continuadamente construído no imaginário feminino? Se não houvesse expectativa de dor, haveria dor?
Difícil questão. Sabemos que o parto não é apenas uma questão biológica pura e simples. Temos questões psicológicas, sociais, culturais. Em culturas onde o parto é um acontecimento a mais do dia a dia, o parto costuma ser isso mesmo, algo do dia a dia sem maiores problemas. Já vimos documentários em que mulheres indígenas largam seus afazeres nas plantações, por exemplo, agacham-se e a criança nasce. Em seguida, elas a lavam, agasalham e colocam nas costas, continuando tranquilamente seu trabalho. Provavelmente essas mulheres nunca viram filmes ou novelas em que aparecem mulheres parindo urrando de dor. Nem aprenderam com sua cultura que parto é um assunto doloroso. No entanto, nem todas as mulheres são indígenas. Nas culturas ocidentais, praticamente todas as mulheres nasceram acreditando que parto é sinônimo de dor.
Parto é coisa séria. Mulheres morrem ao dar à luz. Portanto, essa questão deveria ser melhor estudada, discutida, pesquisada. Não se deveria simplesmente passar adiante a ideia do parto doloroso. As mulheres já têm que lidar com muitas dificuldades pelo fato de serem mulheres para cultivarem mais um mito incapacitante e produtor de medo. Como dizem as autoras acima citadas, esse é um campo minado, mas bem que podemos nos dar uma chance e não nos intimidarmos diante das dificuldades e barreiras que que podem erguer-se na tentativa de impedir novas possibilidades de pensarmos a maternidade e o parto, já que, talvez, isso possa contrariar interesses de pessoas e instituições poderosas que não suportam ver as mulheres mais livres e felizes.

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