Nenhuma a menos

Nenhuma a menos

É sempre difícil conviver com assuntos pesados, olhar eles de frente e perceber do que o ser humano é capaz. Ninguém quer compartilhar negatividade. Quero sorrir, te ver sorrindo, compartilhar as coisas boas da vida.
No entanto, tenho sido convidada volta e meia (ou só meia volta) a pensar na violência contra mulher de forma abrupta. Ultimamente, recebi socos e tapas na alma por ter visto e ouvido tantas histórias de mulheres que foram agredidas tanto física quanto emocionalmente pelos seus companheiros.
Impotente com tudo que vi e ouvi, não quero mais discutir esse assunto quando já aconteceu o pior. Quero ajudar a alertar, conscientizar e antecipar o rompimento de qualquer tipo de relacionamento abusivo antes que a situação fique muito pior e/ou não tenha mais saída.
Por isso estou escrevendo esse texto. Por isso, compartilho contigo os vários tapas na cara que eu levei nos últimos 15 dias (graças à Deusa, tapas só subjetivos e metafóricos):
Primeiro, uma amiga próxima me contou que sofreu agressão do namorado, pessoa pela qual eu tinha bastante apreço. Eu não fazia a mínima ideia. Levei um susto, me impressionei, me enraiveci, fiquei extremamente triste.
A ela, estou dando meu apoio e oferecendo que se utilize da mesma arma que eu: a escrita que, pra mim, é curadora de (quase) todos os males. Felizmente, com muita força interna, minha amiga interrompeu esse ciclo. Porém, em outras casas, o término do relacionamento nunca chegou e o copo transbordou, quebrou, estilhaçou.
Um pouco atrasada nas notícias, em seguida da conversa com ela, soube da situação da advogada Tatiana Spitzner do Paraná que foi agredida por mais de 20 minutos e arremessada pelo marido pela janela logo após tê-la matado com as próprias mãos por estrangulamento (informação que está sendo confirmada pelas investigações). Imagens absurdas de socos, pontapés, golpes e de pedidos de socorro que não foram ouvidos pelos vizinhos ou por ninguém que estava ali. Afinal né: em briga de marido e mulher ninguém mete a colher (jura).
Logo em seguida, dia 6 de agosto em Santa Catarina um homem agrediu sua esposa grávida de três meses com um soco tão forte que a fez cair no chão e falecer na hora. Ainda na mesma semana, soube que em Brasília um homem atirou sua companheira do terceiro andar do prédio após uma discussão. Ela também veio a óbito.
Depois de toda essa violência, eu também já estava quase sem vida. Tudo que eu precisava era de colo e desabafar com mulheres com quem eu tenho confiança. Pro meu desalento não recebi nenhum conforto. Não porque não são boas amigas, muito pelo contrário, mas porque, trocando ideia com mulheres próximas, foi ainda mais triste: mais relatos de situações de relacionamento abusivo. Agressões e mais agressões.
Para citar alguns poucos exemplos: a mãe de uma das minhas colegas de trabalho era agredida pelo seu pai, minha vizinha de porta era agredida pelo ex-marido, conhecidas de amigas minhas estão namorando com homens violentos… Como se já não bastasse, soube que uma das minhas vizinhas levou um empurrão durante uma discussão com o namorado também nessa semana – ironicamente semana de aniversário da Lei Maria da Penha (7 de agosto).
Não te preocupa, na próxima vez que eu ouvir qualquer grito, choro ou qualquer “AI”, vou meter a colher sim. Eu estou com raiva, com muita raiva, muita mesmo, mas vou seguir na maré contrária dos meus instintos e não vou partir pra para agressão verbal ou física. Não quero vingança e nem fazer justiça com as minhas mãos: a minha arma mais potente é a escrita e eu vou usá-la cada vez mais. Não vou me calar pra violência e eu espero do fundo do meu coração que minhas amigas, amigas de amigas, amigas de amigas de amigas também não se calem. Estou levantando uma bandeira: nenhuma a menos.

Juliana W. Soeiro Psicóloga – CRP 07/26220 Telefone 98926-4043

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