Aretha Franklin, a verdadeira origem de todas as divas pop

Aretha Franklin, a verdadeira origem de todas as divas pop

Via HuffPost US/ Matthew Jacobs

“Imagino que você conheça a história de Aretha”, disse Sean Murphy, o produtor de Divas Live. Ele foi uma das pessoas com quem conversei para a matéria sobre os 20 anos da série de shows promovidos pelo canal VH1. Sim, eu conhecia a história dela. Era a história da diva original do pop.

“Diva” significa “deusa”, no sentido literal. Essa definição muitas vezes se perde nas permutações pós-modernas do mundo, e muitas vezes acaba virando sinônimo de “vaca”. Mas não era o caso de Aretha Franklin.

O crescimento da música popular como espetáculo no século 20 foi acompanhado pelo crescimento das personalidades das artistas. Mas ninguém estaria aqui hoje se não fosse por Aretha Franklin, a “rainha do soul” que morreu nesta quinta (16), aos 76 anos. Aretha criou a ideia de diva, primeiro com sua voz extraordinária e depois demonstrando estar consciente do valor que aquela voz tinha.

Considere os shows Divas Live, que tinha Franklin como elemento central. Com quatro décadas de carreira, nenhuma cantora era mais exaltada, apesar de o último sucesso Top 10 da sua carreira fosse de 1985. Mariah Carey, Gloria Estefan, Shania Twain e Carole King celebraram Franklin naquela noite.

Mas não é suficiente saber que as nossas rainhas do pop são talentosas. Queremos que elas estejam no comando, já que lutaram contra as forças do sexismo e do voyeurismo e sobreviveram ilesas. Nesse sentido, Divas Live foi a prova definitiva disso.

A “história de Aretha” é mais ou menos assim. Em 1998, seus produtores teriam pedido que o ar-condicionado fosse desligado durante os ensaios, porque prejudicaria as cordas vocais dela. Mas, quando Aretha subiu ao palco para ensaiar, pediu silêncio. Com a mão perto de uma das saídas de ar, ela sentiu uma ligeira brisa.

“Ela deu piti e foi embora”, disse o produtor Wayne Isaak.

Caos. O ar-condicionado estava realmente ligado? E, caso estivesse, por quê? Segundo Murphy, o Beacon Theatre, em Nova York, estava fazendo um teste do sistema de ventilação justamente naquele dia, então, sim, o ar-condicionado estava ligado. Segundo a produtora Lauren Zalaznick, porém, o ar estava desligado, e as outras artistas estavam reclamando do calor. Enfim, ali começava uma correria e uma série de telefonemas para saber se Aretha voltaria para a o show.

No fim das contas, os produtores descobriram que ela tinha voltado para o hotel, onde estava comendo donuts e provando o figurino da apresentação. Seria um sinal de que Miss Franklin, como todos a chamavam, apareceria para a apresentação ao vivo sem ensaiar? Divas Live seria transmitido ao vivo, e os ensaios eram essenciais para o sucesso do programa, que custou milhões de dólares.

“Não sabíamos [se ela ia voltar], e de repente o céu se abriu, as tábuas foram entregues e então soubemos. Para mim, foi tudo muito misterioso e maluco.”

O show não só continuaria como viraria um dos pontos altos da carreira de Aretha – gerando uma audiência enorme – que viu as herdeiras dela prestando homenagem à diva original dois meses depois de a colaboração com Lauryn Hill em A Rose Is Still a Rose despertar o interesse dos fãs mais jovens. No final do show, as musas cantaram juntas a clássica (You Make Me Feel Like) A Natural Woman, de autoria de Carole King. Mas a melhor maneira de descrever a cena é: Aretha Franklin cantou com suas cinco backing vocals.

“Acho que ligamos o ar-condicionado e gelamos o ambiente ao máximo”, acrescentou Zalaznick. “Acho que cortamos o ar antes da entrada de Aretha Franklin e talvez para o final do show. Ou talvez dissemos que desligamos, mas não desligamos.”

Ouvindo histórias assim, o senso de autoridade de Aretha parece ainda mais importante, quando se leva em conta o pouco que sabemos da sua vida pessoal. Em geral as celebridades consideradas mais difíceis são aquelas cujos relacionamentos e vidas privadas viram manchetes dos tabloides. No caso de Aretha, o que importava era a música. Ela se posicionou como superstar suprema para esconder qualquer dúvida que pudesse ter a respeito de sua imagem corporal ou seus dois divórcios, um dos quais envolveu violência doméstica.

No século 21, quanto menos Aretha se apresentava, mais cândida ela se tornava em relação a suas sucessoras. Quando Beyoncé apresentou Tina Turner como “a rainha” no Grammy de 2008, Franklin ficou ofendida e divulgou um comunicado dizendo ter sofrido um golpe baixo. Em 2014, ela elogiouAdele, Alicia Keys e Whitney Houston, mas disse que não iria comentar sobre Nicki Minaj e fez comendas aos vestidos de Taylor Swift. Em 2017, ela enviou um fax à Associated Press para esclarecer a “difamação” de Dionne Warwick – segundo a qual Aretha seria madrinha de Houston.

Para Aretha, tudo tinha a ver com status. Ninguém podia se manifestar em seu nome e ninguém podia desafiar sua soberania. Por mais absurdo que pareça o episódio de Divas Live, por que ela não abandonaria o lugar se suas exigências não fossem atendidas? Um punhado de cantoras mais jovens e de mais sucesso estavam nos bastidores esperando para tomar o trono – ou pelo menos era o que parecia.

E então, naquela bendita noite, num momento extremamente diva, Aretha fez o que sabia fazer melhor. Ela cantou tão alto, com tanto poder e tanta beleza, que a concorrência não tinha a menor chance. Ela obteve respeito.

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