Rosangela da Silva: A busca pela autoestima em um mundo que ignora a beleza negra

Rosangela da Silva: A busca pela autoestima em um mundo que ignora a beleza negra

Via Huffpost/ RYOT Studio e CUBOCC

Parece que não, mas a autoaceitação da mulher negra com seus traços é recente. Quem diz isso é Rosangela da Silva, empresária de 39 anos e cofundadora da marca Negra Rosa. Criada há pouco mais de dois anos, o que rege a empresa é uma coisa só: aumentar a autoestima de mulheres negras, de todos os tons de pele. De batons a gel de cabelo, Rosangela se preocupa em criar produtos que não vão excluir mulheres negras que, ao longo da história, foram invisibilizadas pelas marcas de cosméticos tradicionais.

Como para a maioria das mulheres negras, a descoberta da própria identidade em meio a um mundo racista aconteceu ao descobrir seu cabelo natural. Na infância, Rosangela não odiava os fios, mas via como natural o processo de alterar a estruturar deles, quimicamente ou não. Foram anos no processo de esconder os cachos, mas não por sentimentos ruins. “A química era a forma natural que eu via de tratar meu cabelo. Não era ódio, eu só não conhecia. Quando eu cortei e vi ele crescendo, pensei que queria ter feito isso muito antes”, ela diz. Não sem razão.

Quando cortou seu cabelo bem curto para deixar que o crespo ganhasse vida, um processo chamado de transição capilar, descobriu um novo mundo. Em um fórum da internet, antes do fatídico corte, já compartilhava dicas específicas sobre cuidados para pele negra com outras mulheres que enfrentava os mesmos empecilhos.

“Se não fosse o meu cabelo, talvez eu não estivesse onde estou hoje. Eu sempre soube que era negra, mas depois que fui entender como o racismo funciona. Antes eu vivia numa bolha, minha família é misturada e eu podia ser aquela pessoa que fala que nunca viu ou ouviu falar sobre racismo. A mudança do cabelo me trouxe conhecimento além do conhecimento capilar, foi um conhecimento sobre a identidade”, conta.

Depois de perder as madeixas modificadas, mergulhou de vez naquele mundo. Com o apoio das colegas de internet e amigos que viajavam para o exterior, começou a testar produtos para cabelos crespos. Ressaltar os produtos importados é fundamental: naquela época, em 2009, as americanas já travavam uma discussão ampla sobre cuidados e beleza específicos para negras. Aqui no Brasil, as mulheres negras tinham que se desdobrar em tradutores e vídeos para assimilar o conteúdo produzido na gringa, e isso motivou Rosangela: ia criar ela mesma um canal para compartilhar com mais gente aquilo que dividia com as colegas de fórum.

Há cerca de dez anos, poucas blogueiras negras falavam sobre cabelo, maquiagem e cosméticos específicos, o que atraía um público carente de informação qualificada. “Eu tentava mostrar nos vídeos que o cabelo crespo tem muitas possibilidades”, explica Rosangela. Hoje, muitas outras blogueiras dividem sua rotina de cuidados e dão dicas para mulheres negras. Na avaliação da empresária, o “boom” de informações é positivo.

“Eu vejo crianças exibindo seus cabelos, e na minha época não tinha isso. Por mais que elas cresçam e escolham alisar depois, tiveram contato com a sua própria identidade de forma diferente. Agora mães com cabelos quimicamente tratados estão cuidando de filhos com seus cabelos naturais”, contextualiza.

E o blog, que era hobby, cresceu. Com a proposta de dois amigos, em 2016 Rosangela topou criar a própria marca de cosméticos, com foco na mulher negra. Os primeiros lançamentos foram batons coloridos, para começar a quebra de estereótipos já de início.

“Uma vez eu conversei com uma senhora que disse que não usava batom vermelho porque chamavam ela de ‘nega maluca’ quando ela usava. O batom vermelho remete a uma chacota, remete a uma representação racista e a gente se afasta dele, diz que só usa batom nude. [Diz que] ‘eu tenho a boca grande’. E qual o problema de usar batom vermelho e ter a boca grande? Dizem que o colorido é coisa de preto, e que coisa de preto é ruim. Você começa a entrar num padrão para ser aceita ou passar despercebida”, analisa.

Enquanto a venda dos batons dava certo, Rosangela e sua sócia, Ana Heller, decidiram começar a investir em bases para a pele negra. Desafiador. A falta de boas referências dos diferentes tons de pele negra que existem dificultou que fábrica e marca chegassem a um consenso sobre o que deveria ir para a rua.

“A fábrica não costumava fazer nada para a pele negra, a base para a pele negra padrão é um tom de marrom e só. Então chegamos na fábrica com outra demanda, tivemos que fazer muitas reuniões. Eu dizia ‘se está escuro para vocês, está claro para mim. Tem que estar muito escuro para vocês!'”, relembra a empresária.

Do desafio ao maior sucesso, a base Negra Rosa causou um burburinho nas redes sociais à época do lançamento, em 2017. “Foi o momento que entenderam que a marca era real”, conta Rosangela. E foi mesmo: blogueiras, influenciadoras, famosas e, principalmente, anônimas, comemoraram a chegada de um produto que fosse atender até o tom mais escuro da pele negra.

No início, Rosangela planejava continuar a rotina de trabalho no seu emprego formal, mas o encerramento das atividades da empresa em que trabalhava veio a calhar: o trabalho de produção de conteúdo e cuidados com as clientes da Negra Rosa merecem dedicação em tempo integral. Hoje, as centenas de revendedoras espalham os produtos pelo Brasil, mas cada resposta em cada página oficial quem dá é Rosangela.

Com tanto trabalho, ninguém nada em rios de dinheiro: o sucesso das vendas é revertido para investimentos no próprio negócio. Um dos produtos da marca é uma paleta de sombras, que foi outro desafio, claro. Rosangela conta que queria sombras bem pigmentadas, mas tinha como parâmetro tons bem escuros de pele. Ela explica que o “muito pigmentado” para a pele branca, pode “sumir” em uma pele negra. Conseguiu. Depois de reuniões, idas e vindas, a paleta Negra Rosa também foi às ruas e é um sucesso. Mais recentemente, Rosangela desenvolveu um gel, com a quantidade de óleos e nutrientes necessárias para cabelos crespos.

Por sempre focar nas peles escuras, a probabilidade de Rosangela ser tachada de segregadora não é pequena. Mas prematuramente ela adotou uma postura em relação a isso: ignorar. “Eu quero que o mesmo questionamento que fazem que “aqui só tem preto”, façam também na empresa que só tem brancos. Se eles não fazem, a crítica deles não vale para mim. Se fossem lá e reclamassem do mesmo jeito, sim. Mas ela não vai. Ela só quer criticar um nicho que não era atendido e passou a ser”, opina.

E o maior desejo de atender esse nicho vai além do sucesso profissional. Com uma história entrelaçada com de outras mulheres negras, Rosangela reconhece a importância de manter a autoestima alta em um mundo que ignora a beleza negra.

“No momento em que você entende que seu cabelo é bonito, que a sua pele é bonita e que o que te faz sentir inferior é todo um processo racista, você fica mais forte para lutar”, conta emocionada. “Você enxerga o mundo de um jeito diferente. Quando eu mudei de cabelo, fiquei muito mais forte”, define.

“Quando você tem a consciência de que também é bonita e pode fazer as coisas, as pessoas que antes estavam acostumadas com sua posição de servidão não acompanham mais você, por não quererem ou por se sentirem intimidadas”, completa a empresária.

Revolução? Rosangela acredita que não para tanto. Mas talvez pequenas revoluções estejam, sim, acontecendo a todo tempo. “Os próprios negros foram entender mais sobre a negritude e estão se empoderando individualmente para depois fazer, talvez, isso em outros setores. Quando você tem uma autoestima mais forte, você consegue buscar melhorar outros fatores na sua vida.”

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