Valéria Barcellos da Silva: A voz e o canto em defesa da dignidade para as mulheres trans

Valéria Barcellos da Silva: A voz e o canto em defesa da dignidade para as mulheres trans

Via HuffPost/ RYOT Studio e CUBOCC

Com oito anos de idade, Valéria Barcellos da Silva descobriu que sua vida não seria nada fácil. Foi no banheiro da escola que uma colega pronunciou: “não, seu pinto não vai cair!”. O que caiu, naquele momento, foi o mundo de uma criança que estava apenas aguardando o suposto evento biológico para se libertar. “Eu criei isso na minha cabeça, e por uns três ou quatro anos, fiquei esperando ele cair, como se fosse uma verruga. Naquele momento, me dei conta de que ia ter de conviver com essa dualidade”, conta a cantora de 38 anos.

Nascida e criada em Santo Ângelo, a 430 quilômetros de Porto Alegre, Valéria aceitou a carapaça de menino e “se fechou”. A infância foi feliz, diz ela, apesar do “ódio, da exclusão e da solidão” de ser uma criança trans e negra. Bom humor, aliás, é uma marca da extrovertida artista, que faz piada até ao narrar desventuras.

“Quanto eu tinha uns 9 anos, minha mãe me levou à psicóloga. Ela me ofereceu uns brinquedos, e pensei: não posso dar pinta, que eu sei por que estou aqui. Peguei um carrinho, mas tinha uma Barbie tããão linda, com asas de fada… Eu queria era brincar com ela. Peguei a boneca e botei dentro do carrinho!”, conta.

Quando faltava uma semana para completar 18 anos, seguindo um plano antigo, contou a verdade para a mãe, Ângela Maria, e contou a ela com o que realmente se identificava. “Eu não queria machucar minha mãe. Quando contei, ela disse: eu sempre soube!”, lembra. Dona Ângela Maria ficou uma semana sem falar com a filha, até o dia em que saíram juntas para fazer compras e conversaram. Naquele momento, recorda Valéria, viraram melhores amigas.

Foi ao atingir a maioridade que Valéria começou a tomar hormônios. Nessa época, cantava em uma banda de baile de Santo Ângelo, a Balança Brasil, vestida de homem. A pedido dos outros músicos, tinha de esconder os seios com uma faixa. “Aqui na banda tu és menino, lá fora, pode ser o que tu quiseres”, diziam. Em casa, a situação não era menos complicada, e, depois que dona Ângela Maria faleceu, em 2002, ela foi “gentilmente convidada a se retirar” da casa do pai de criação, com quem mantinha uma relação “de amizade”, mas distante.

Foi morar de favor com amigos e, em 2005, mudou-se para Porto Alegre. Antes, porém, de deixar Santo Ângelo, marcou sua despedida vencendo o primeiro concurso de rainha gay do Carnaval da cidade. Foi então que a cantora, que tinha “o gingado da Globeleza Valéria Valenssa e a voz da Whitney Houston” adotou o nome artístico usado por mais de uma década: Valéria Houston. Há dois anos, obteve na Justiça o direito de mudar o primeiro nome na certidão de nascimento e, há seis meses, o gênero, sem ter feito cirurgia. “Quando peguei a certidão pela primeira vez, chorei. É um atestado de dignidade”.

Com o dinheiro da passagem emprestado, mudou-se para a capital. Três semanas depois, ainda “sem R$ 3 para pagar o ingresso”, foi a convite de amigos cantar no videokê do Venezianos, bar frequentado pela comunidade LGBT de Porto Alegre. “Cantei a música do filme Guarda Costas. Quando terminei, o bar estava em silêncio. Duas semanas depois, a dona me convidou para trabalhar lá” – e ainda se pode ouvir Valéria cantar no “Venê” até hoje, pelo menos duas vezes por mês. “É minhas segunda casa, foi a primeira porta que se abriu aqui”. A carreira engrenou logo, com apresentações no circuito de casas noturnas LGBT de Porto Alegre, e abreviando a necessidade de fazer faxinas, trabalhar em hotéis ou call centers (todas, experiências um tanto breves).

No dia 30 de agosto de 2015, um episódio marcou sua vida e carreira. Ela caminhava com o então namorado pelas ruas da Cidade Baixa em uma tarde de domingo quando ambos foram atacados por um homem até hoje não identificado. “Estávamos na Rua da República e vinha, do outro lado da rua, na direção oposta, um senhor negro, de seus 40 e poucos anos, que começou a me xingar de tudo que possas imaginar”, recorda ela, que não leva desaforo para casa e foi de encontro ao homem.

Mas não percebeu quando ele tirou da mochila uma chave de fenda, com a qual a feriu nas costas e o namorado, no braço. “As pessoas seguiam caminhando e ninguém fez nada! O homem saiu andando como se nada tivesse acontecido”. Os ferimentos foram superficiais e resolvidos com suturas, mas mudaram com profundidade a postura da cantora. “Eu sempre fui militante, mas, a partir dali, me tornei ativista. Muitas de nós são agredidas e deixam de ir à polícia porque sabem que não vai dar em nada. Ou por medo de sofrer outra violência”.

Valéria lança mão de suas redes sociais, seus shows, suas entrevistas: “se a pessoa falar dois minutos comigo, vai ouvir algo sobre transexualidade”. Ela sente necessidade de dizer, por exemplo, que a expectativa de vida de transexuais no Brasil é de 35 anos. Segundo aAntra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), que mantém um mapa atualizado dos assassinatos, foram 179 homicídios em 2017, e tudo indica que, este ano, a estatística não cairá: até o dia 7 de junho, foram mapeadas 76 mortes, número que equivale a 42,45% do total do ano passado.

Outro problema que enfrentam mulheres e homens trans é o mercado de trabalho: 90% das transexuais são prostitutas porque não têm oportunidade de emprego. Por isso, engajou-se em um projeto de inclusão de trans no mercado de trabalho, o Transparecer, capitaneado pela recrutadora Marta Pivatto.

Treze anos depois de deixar Santo Ângelo, Valéria é um nome respeitado, não só na cena artística gaúcha – passou o mês de maio em São Paulo, convidada para uma temporada no espetáculo Terça Insana. Em março deste ano, abriu o show de Katy Perry em Porto Alegre. Até em Paris já se apresentou, depois de vencer o Festival da Canção Francesa de 2012 no Rio Grande do Sul. À cidade natal, ela só volta por necessidade, ocasionalmente. “Mas quando volto é que nem Tieta! Me convidam para eventos, saio no jornal”.

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