A culpa não é sua

A culpa não é sua

“A culpa não é sua”. É o que repito praticamente todos os dias em diálogos comigo mesma. Sim, ainda preciso conversar diariamente comigo para eu relembrar do quanto sou legal, do quanto sou bonita, do quanto mereço ser feliz, do quanto mereço ser amada. De que “não, eu não fiz errado” em dar “adeus” ao relacionamento que me machucou fisicamente e internamente.

As consequências da violência são severas. Eu as subestimei. Achei que eu superaria mais rápido. Mas elas estão lá. Elas seguem me acompanhando e me assombrando enquanto a vida continua.

Eu ainda lembro de tudo, todos os dias. E tento, mesmo assim, seguir em frente. Eu tenho sonhos, eu sinto no peito. Eu sinto raiva, eu sinto pena.

Muitas vezes, preciso reler textos antigos dos meus diários, onde eu já relatava os problemas no relacionamento, pois ainda preciso me lembrar de que eu tinha que dar um fim em tudo. Ainda pergunto para amigos e familiares: “Fiz certo, né?” Nessas horas, ainda sinto vergonha, ainda sinto tristeza, e ainda sinto culpa. Culpa. A bendita.

Sim, é isso mesmo. O ciclo continua mesmo com a saída do relacionamento destrutivo. Você precisa continuar a lutar todos os dias para romper essas falas na sua cabeça, que defendem um relacionamento não saudável.

Enquanto o mundo segue freneticamente com discussões políticas e com discursos de ódios absurdos, eu continuo lutando, em dobro. Luto contra a tristeza, contra a melancolia, contra o cansaço de lutar todos os dias. Triste por um mundo tão violento.

Tenho que, várias vezes, lembrar e pedir para minha psicóloga falar que violência não tem justificativa. Nada justifica uma pessoa achar que tem direito de bater em você. Nada justifica.

A violência não é solução. Quem não precisa de carinho? Quem não precisa ser integralmente ouvido? Quem não quer reciprocidade? Quem não precisa de amor?

Há dias em que me permito sentir essa tristeza. Em outros, não. Nesta semana, eu prometi que vou intensificar o fluxo de atividades culturais, sociais e exercícios físicos para sair desse buraco que me chama, de vez em quando, para dentro. Vou lá, visito a lama novamente.

No entanto, eu não desisto. De repente, escalo os tijolos do poço, mesmo quando a voz mais alta diz: fica! E, mesmo assim, de vez em quando, escorrego de volta.

Quero que você não desista. A mesma culpa, que colocou você dentro, continua a perseguir do lado de fora. E é com ela que você precisa conversar, precisa entender, precisa ouvir, precisa dialogar. Tenho certeza de que em algum momento chegaremos em algum acordo, para que ela siga em paz e me deixe em paz. Deixe que você também fique em paz.

Continuo caminhando para longe do passado, para estar atenta ao presente e para acreditar que o futuro será melhor. E vai, minha amiga. Vai. Somos fortes, resilientes e resistentes.

Eu acredito em mim. Eu acredito que as nuvens escuras vêm e vão embora. A vida é de altos e baixos. Faz parte. E não esqueça: nada justifica a violência.

E o principal: a culpa não é sua.

Caroline Tatsch

Instagram: @ctatsch

caroline.tatsch@gmail.co

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