A liberdade, os ventres e as mulheres: O trabalho da terapeuta Caroline Amanda

A liberdade, os ventres e as mulheres: O trabalho da terapeuta Caroline Amanda

Via Huffpost/ RYOT Studio e CUBOCC

 

Quem conhece Caroline Amanda, 27 anos, passa a ter certeza de que algo sagrado existe no mundo, ou para além dele. Dona de sorriso e força admiráveis, ela mesma se confunde com os elementos da natureza, como a ventania, a cachoeira e a própria mata que corta o Rio de Janeiro. Não à toa, escolheu o cenário que pode ser visto nas fotos desta reportagem, no meio da Floresta da Tijuca, para ajudar a contar a sua história como terapeuta menstrual e do surgimento do Yoni das Pretas, um grupo de suporte, apoio e fortalecimento para que mulheres negras entendam a potencialidade de seus ventres, como assim define.

Pesquisadora incansável, atualmente cursa duas faculdades: de Ciências Sociais, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e de Direito, na Universidade Cândido Mendes (UCM). Entre uma aula e outra, ela constrói o trabalho no Yoni, “quase como um parto normal” para ensinar mulheres a se reconectarem com o que há de mais sagrado em sua existência. Do sânscrito, “yoni” representa o órgão sexual feminino e tem significados que vão desde “passagem divina” até “templo sagrado”.

O foco do projeto em mulheres negras, explica Carol, não é por acaso. Militante no movimento estudantil desde os 13 anos de idade, foi ali que ela, nascida em São Paulo, se envolveu pela primeira vez com política. Já aos 16, saiu da casa da família para se jogar no mundo, meio sem pensar. Já adulta, começou a acompanhar mães de vítimas de violência do Estado, e “conforme foi intensificando a minha vida política, foi intensificando meu processo de adoecimento”, conta ela. A maioria das mães era negra, e a maioria de seus filhos mortos, também. Era uma luta diária contra o genocídio do povo negro na sua forma mais cruel, diretamente com a morte. Hoje, ela optou por outra via, relacionada à vida.

“Você está sempre se deparando com algo em que você é impotente, que é a morte. E diz muito sobre a nossa pequenez, né? É a morte. Você não vai trazer o filho de ninguém de volta. Então essa agenda legal, jurídica e institucional de luta contra o genocídio, que demanda muito, eu rompi. Acho que hoje eu luto contra o genocídio em outro lugar, promovendo a saúde desses ventres. Nossos ventres, no geral, de mulheres africanas em diáspora, têm uma memória muito complexa: muita dor, muita perda, muitos abortos forçados, muitos outros abortos espontâneos que são fruto do racismo”, analisa.

Há 2 anos, passou por um episódio-chave para mudar a forma como conduziria sua vida e foi fundamental no seu caminho até hoje. Carol era uma das responsáveis por um evento que reuniu 2.500 universitários negros no principal campus da UFRJ e conta que ficou os 3 meses anteriores ao evento sem menstruar. “Hoje eu entendo que estava resguardando uma energia, uma tensão, também. No último dia do evento, em maio, quando fechei a última atividade, minha menstruação desceu na mesa, escorreu pelas pernas. Ali eu falei: o que eu estou fazendo comigo é grave, olha como meu corpo está me ajudando e olha como eu estou me colocando à exaustão. Foi imediato. Depois comecei a repensar tudo: minha rotina sexual, minha atividade alimentar, minha atividade política, minhas companhias”, relembra.

Ela conta que a primeira relação mais afetiva que teve com seu corpo, até então, era externa, principalmente por meio das roupas. Neta de costureira, ela lembra que foi o primeiro e maior espaço de afeto com o corpo, mas que a partir daquele maio de 2016 o corpo pedia uma atenção ao que ninguém poderia ver. “Quando você para de estar disponível para a agenda externa e começa a entender que existe uma agenda interna, você começa a prioriza-la. Sem ela, você está destroçada”, afirma. “Entendi que meu corpo tinha uma agenda própria: seus próprios horários, suas próprias demandas. E que não valeria a pena ficar sublimando com trocas artificiais. Tinha que ser real, tinha que ser orgânico.”

Em busca de trocas nada superficiais, percebeu que caminhava ao lado de outras mulheres, especialmente negras, que almejavam a mesma coisa — mesmo sem plena consciência disso. Ela contextualiza o surgimento da Yoni junto à busca por essas respostas para perguntar que nunca cessam. “As pessoas estão percebendo que o que sobra é essa cachoeira que nunca seca, esse ar que nunca para. O ser humano pode destruir isso tudo, mas a natureza vai se refazer sempre. Existe uma dimensão da intimidade que é inalienável, intransferível e só você pode cuidar. É um despertar”, afirma.

Esse chamado para cuidar de seu ventre não é em vão. A terapeuta explica que “a cabeça racionaliza, mas o ventre é que guarda as memórias”. E explica: “É o lugar do ‘estou me curando e quero que outras irmãs tenham essa oportunidade, que façam suas escolhas'”. Por escolhas, Carol destaca, são fundamentais aquelas que sirvam a si e não somente aos outros: “A gente está um pouco cansada de performar: a fortaleza, a acadêmica incrível, a militante com respostas para tudo. A performance cansa. O ator tem hora pra performar, mas a gente performa 24 horas por dia.”

O conteúdo do que é discutido em cada roda é plural, e vem do conhecimento acumulado pela experiência de Caroline e também sua formação como terapeuta menstrual e thetahealer, uma forma de terapia que envolve campos energéticos. Nas reuniões, que são mensais e de acordo com o calendário lunar, ela facilita as discussões para que as frequentadoras entendam as “fortalezas e desafios” de cada fase do calendário menstrual. Como atividade também é proporcionada a aula de pompoar com propósito, “para entender o assoalho pélvico como um grande oráculo, como uma potência e um exercício de poder”.

Dizendo-se profunda admiradora do feminino, apesar de não se considerar feminista, Carol destaca que a pós-modernidade talvez tenha colocado em dúvida para algumas mulheres que elas merecem cultuar e compreender seus ventres. Mas ela reitera: o poder dele é inalienável. “Não é hippie falar de ventre, não é abstrato. Não é misterioso. Muitas irmãs não se sentem dignas de serem cultuadas, de se cultivar a cultuar, ou porque bebem muito, ou porque transam com caras diferentes. Mas são, sim. Todas nós continuamos sagradas.”

Como próximos planos, quer abrir um consultório para atender individualmente como terapeuta menstrual e levar as reuniões da Yoni para outros Estados além do Rio de Janeiro, como já aconteceu em São Paulo e Salvador. Questionada se a forma como conduz a luta por ventres mais saudáveis pode ser alvo de críticas, a terapeuta é tranquila em afirmar que não e fala com convicção da importância desse movimento.

“É esse lugar de conhecimento, de percepção de conscientização coletiva do quanto nosso ventre é sagrado, porque é. E porque também é o primeiro ventre do planeta. Se Eva e Lilith tinham uma cor, era melaninada. O primeiro ventre do planeta era africano. Então falar de ventre é falar de ancestralidade, de genocídio, de comunidade. Não é uma coisa desligada”, finaliza, enquanto uma ventania digna de levantar poeira e derrubar folhas toma o lugar, como se a natureza confirmasse: este é mesmo seu caminho, Carol.

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