Feminismo e Maternidade: Opostos ou complementares?

Feminismo e Maternidade: Opostos ou complementares?

Dia desses, em conversa com uma amiga mãe de primeira viagem, cujo tema era a reinserção da mulher no mercado de trabalho, pós licença maternidade, fui atropelada com o seu relato doloroso, primeiramente, ao constatar o machismo corporativo existente na maioria das empresas, que oprime as mulheres de forma cruel,  fazendo com que tenham de escolher, muitas vezes, entre ser uma ótima mãe ou uma ótima profissional. Posteriormente, fiquei me questionando como o machismo é algo tão estrutural e cultural, que consegue penetrar dentro de algumas mulheres, fazendo com que elas não consigam associar a maternidade ao movimento feminista, por exemplo.

De forma bem didática, entendo que não há como desassociar um do outro, em hipótese alguma, principalmente se pegarmos, por exemplo, o contexto do nosso país, que falha vergonhosamente nas políticas de saúde pública, isto é, a saúde da mulher, dentre outros segmentos. Só por esse motivo, não temos como falar de maternidade sem falar de feminismo, que é um movimento político, social e econômico e que, portanto, engloba a maternidade, assim como os desníveis hierárquicos e salarias ocasionados pela distinção de gênero, sem falar na questão racial.

Em pesquisa rápida sobre a mulher e o ambiente corporativo, é possível perceber o abismo de gênero que nos separa dos grandes cargos dentro das empresas. Basicamente, aos olhos dos “gestores” as mulheres não são “confiáveis” ao ponto de merecerem destaque e cargos de chefia. Nos raros casos em que as mulheres alcançam um alto nível hierárquico, precisam adotar uma postura rígida para serem “respeitadas” e esse comportamento de ambos os lados demonstra que ainda vivemos marcadas pelo sexismo.

Porém, o que realmente me marcou e inquietou foi constatar que o sexismo também está enraizado no meio feminino, isto é, existem mulheres que julgam as que são mães como indignas, preguiçosas, sem credibilidade ou estabilidade emocional, o que demonstra a força cultural do patriarcado, que de maneira silenciosa dita o comportamento de algumas mulheres, no sentido de praticarem o machismo com outras irmãs.

Preocupa-me absurdamente o fato de que não consigam sentir o mínimo de empatia por outras mulheres, como minha grande amiga, que, historicamente, lutam contra um sistema que não nos trata como líderes, apesar de sermos desde os primórdios da humanidade. Portanto, falar de feminismo e não falar de maternidade, ao meu ver, é uma forma de opressão e exclusão dessas mulheres que são a base da civilização. O que seria completamente oposto aos princípios feministas.

Nesse sentido, gostaria que todas refletíssemos sobre nossas ações, com o intuito de ampliarmos nossa percepção de que o estilo de vida ou as opções pessoais de outras mulheres não são, de forma alguma, um ataque as nossas próprias escolhas. Que tal criarmos um ambiente confortável para que essas mulheres culturalmente hostilizadas, possam exercer um dos seus vários papeis? Que tal criarmos mais espaços de trocas, de amparo e sororidade, a fim  de promover o nosso empoderamento  e o de outras mulheres?

Amanda Alves

 

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