O feminismo mudou nossa maneira de fazer sexo

O feminismo mudou nossa maneira de fazer sexo

Via Vice/ Michelle Kaloussieh

É provável que você já tenha esbarrado em algum meme que tire uma onda com a falta de capacidade dos homens em achar o clitóris. O sentimento geral ao trocar ideia com mulheres jovens é que a descoberta do próprio corpo e prazer trouxe uma mudança na dinâmica do sexo hétero nos últimos anos. Parar de fingir orgasmo pro cara saber que mete mal é unanimidade entre as minas com as quais conversei pra escrever este texto.

Segundo a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, essa mudança é lenta e gradual por conta do sistema patriarcal, que está aí há cinco mil anos e definiu muito bem o papel do homem e da mulher na sociedade: “O feminismo está fazendo com que a mulher possa ser mais espontânea. No sexo em si, acredito que cada vez mais a mulher busque o seu próprio prazer”, disse à VICE.

A real é que ser uma mulher hétero feminista sexualmente ativa tem sido difícil pra caramba. A gente sabe o que quer e o que merece no sexo e nas relações, mas também sabemos perfeitamente qual a visão do “homem hétero padrão” por sentir e presenciar o machismo em tantas formas ao longo da vida. Construir relações héteros com simetria é um esforço gigante que não tem resultado se vier de um lado só.

Em um contexto histórico, a psicanalista acredita que “a partir da pílula anticoncepcional nós entramos num processo de viver e pensar o amor e o sexo de maneira diferente. Hoje, o que você observa é que existem pessoas jovens que já se libertaram dos padrões tradicionais e outros que ainda estão presos”.

Situações no mínimo egoístas parecem estar se tornando menos recorrentes conforme a ideia de que o sexo – mesmo casual – com uma pessoa que não te respeita e não está nem aí pra sua parte da diversão não vale tão a pena assim: “Se o cara fica com frescura na hora do oral, se faz coisas inesperadas sem permissão, se força algo, se goza e foda-se, eu falo mesmo que tô incomodada e nunca mais me envolvo sexualmente com ele”, conta Pietra*.

No caso do sexo hétero, obviamente há a necessidade do homem ter se libertado do mito da masculinidade para que haja essa troca justa na hora da transa. “Muitos homens ainda vão pro sexo para provar que são machos”, menciona Regina. “E acreditam que para uma boa transa basta ter ereção e ejacular. Os que já se deram conta de que é uma troca vão para a relação para construir o prazer junto com a parceira.”

Em termos práticos, Julia* conta que se masturbar durante a penetração é algo que mudou completamente o entendimento dela de orgasmo. “Fala-se tanto na dificuldade das mulheres em atingir orgasmo e na tal diferença do orgasmo vaginal e do clitoriano, que quando descobri que dá pra juntar as duas coisas e que eu posso ajudar o cara a entender o que eu gosto, explodi de prazer. Mas esse processo só rolou quando me conheci profundamente e passei a conversar abertamente sobre sexo com outras mulheres.”

Mariane Monteiro também foi ouvida e conta essa virada em sua trajetória sexual: “Era realmente muito comum deixar a transa terminar quando o cara gozava. Mesmo já me masturbando desde a adolescência, mostrar para o outro esse caminho do prazer era algo que eu simplesmente ignorava por achar que o sexo acabava quando o homem ejaculava.”

Para a humorista Letticia Munniz, “as mulheres entenderam que não estão sendo usadas, que estão transando porque querem. Que não somos um instrumento de prazer pro homem”.

Ela considera importante parar de achar que liberdade sexual é sair transando com todo mundo e passar a entender que é sobre como ter autonomia para fazer escolhas: “Tem feministas que acreditam que a liberdade sexual favorece os homens. Mas ela é nossa. Não quer dizer que você tenha que sair dando pra todo mundo, a menos que você queira. É fazer o que você tem vontade.”

“Me sinto livre para ser um ser sexual sem tentar esconder isso ou achar que há algo errado comigo”, conta Gabriela*. Já Maria* explica que o que mudou foi o pensamento de que ela não podia transar logo de cara com alguém. “Fiz isso uma vez e me senti péssima, aos poucos fui desconstruindo, rolou de novo e foi incrível. Isso é uma coisa que as pessoas julgavam tanto e me empoderou muito saber que eu podia fazer aquilo só por prazer, sem nada além disso.”

A sensação é que percorremos um caminho que foi do slutshaming – prática machista que diminui a mulher que escolhe transar e que fala abertamente de sexo – ao empoderamento na hora da transa. Mas os dois contextos ainda existem e reverberam paralelamente na sociedade. “Muitas mulheres ainda se sentem culpadas e desvalorizadas pelos caras, porque a gente cresceu e ainda vive nessa sociedade machista e patriarcal”, pontua Letticia, que costuma chamar suas seguidoras e ela mesma de “piranhudas”.

Para a psicanalista Regina, “o machismo está dando sinais de perder a força, de começar a sair de cena”. Mas ainda tem muito homem que não se ligou que as coisas estão mudando e muita mulher que ainda relata nunca ter gozado na vida ou que não tem o costume de se masturbar e se conhecer.

O prazer feminino está sendo muito mais falado, mas ainda é tabu. Regina acredita que “a tendência é que no futuro muito mais mulheres serão livres para buscar prazer sem tanta preocupação sobre o que os homens vão pensar sobre elas”.

 

*O sobrenome das entrevistadas não foi divulgado para preservar suas identidades

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