Contos reais pelo olhar de uma veterinária

Contos reais pelo olhar de uma veterinária

Falar sobre eutanásia é uma questão extremamente delicada. Já fiz alguns posts falando sobre esse assunto.

De alguns tutores que dizem não querer ver seu animalzinho sofrer, mas na verdade veem o animal como um peso.

Quando se trata de um animal idoso com limitações ou alguma doença que requer mais cuidados, mesmo que o animal esteja bem dentro do quadro, eles querem mais é se livrar do “problema”, pensando logo na eutanásia como solução.

Tem um episódio que sempre recordo. Aconteceu já faz uns anos quando eu trabalhava como intensivista em um hospital veterinário de uma universidade.

Já era madrugada quando uma família aflita entra na recepção com uma cadelinha nos braços.

Samantha não comia e não caminhava há dias. Ela era uma linda vira-lata de porte médio e peludinha. Estava no alto de seus dezessete anos.

Ela havia sido diagnosticada com DDI(Doença do Disco Intervertebral).Uma doença degenerativa na coluna que causa muita dor por comprimir a medula. Limita os movimentos e com a idade tende a se agravar.

Provavelmente pelos sintomas que estava apresentando também já tinha comprometimento renal, o que depois foi confirmado através de exames.

Vendo o sofrimento de Samantha e já sabendo que era um quadro de prognóstico extremamente desfavorável, e também sabendo o quanto aquela doce cadelinha representava para a família, sugeri a eles com toda a delicadeza que talvez ela pudesse partir sem dor e sem sofrimentos. Eles me entenderam perfeitamente, mesmo não tendo falado a palavra eutanásia. Juro, aquilo doeu em mim.

Meu Deus! Que momento difícil.

O senhor e a filha adolescente se olharam e sem titubear me responderam que não conseguiam imaginar suas vidas sem a amiguinha de patas.

Estou relatando o caso e lágrimas escorrem em meu rosto, relembrando aquele dia.

Muitos podem pensar que eles estavam sendo egoístas por ela estar em sofrimento e eles não aceitarem “adiantar” a sua partida. Entretanto, eu os entendo perfeitamente.

Isso é amor, o mais puro amor. E eu, mesmo sendo profissional da área, já passei por esse momento com uma das minhas filhas de patas.

Olhei para a família da Samantha e eles ainda mantinham esperanças na recuperação dela. Prometi que daria o meu melhor para amenizar as dores da doce criaturinha. E assim foi.

Com meus colegas, fizemos uma caminha bem macia e com muitos cobertores para ela. Recebeu medicamentos de analgesia, fluidoterapia e naquela noite mesmo ela voltou a comer. As dores fortes estavam impedindo ela de se alimentar.

Ficamos toda a madrugada nos revezando. Eram muitos cuidados e carinhos para aquela senhorinha especial.

Pela manhã trocou a equipe de plantão, me despedi da Samantha com um beijo e um afago, dizendo que à noite nos encontraríamos novamente. E liguei para a familia dando notícias dela.

Naquela mesma tarde, ela partiu…

Conforme os meus colegas, ela comeu novamente durante o dia e permaneceu tranquila. Ela partiu dormindo. Sem dores, de barriguinha cheia, com muita dignidade e tendo a certeza de que foi muito respeitada e amada como um membro querido de sua família.

Conto essa história porque sabemos todos os dias de casos de negligência e maus tratos com os animais. Realmente é desanimador saber de tanto descaso com os animais.

Entretanto histórias como a da Samantha não me fazem perder a fé na humanidade.

Ela viveu por dezessete anos com uma família e conheceu o amor incondicional.

Esse amor que a maioria dos animais infelizmente não tem a oportunidade de nem sequer conhecer.

Abrace e ame muito seu pet. A vida deles é muito curta! E quando eles tiverem velhinhos e passando por dificuldades, lembre-se de que será o momento que eles mais precisarão de cuidados e amor.

Marilda M. O. Bilhalva

Médica Veterinária

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