O sangue das mulheres guerreiras corre em nossas veias

O sangue das mulheres guerreiras corre em nossas veias

O sangue das mulheres guerreiras corre em nossas veias.

Hoje liguei para minha vó paterna, “- Esse sim é um ser humano”, pensei. Essa expressão criei para falar das pessoas que mais admiro, com a minha vó não seria diferente. Que mulher de fibra!Para te contextualizar, minha vó está com 97 anos e é extremamente lúcida – “com algumas dores”, ela fala. Já era de se esperar.

Há mais ou menos dois anos percebo que ela está um pouco mais esquecida que antes. Sempre teve memória melhor que a minha, mas esse especificamente não é o seu grande feito já que eu sou a rainha do esquecimento.

Seus “feitos” são bem maiores, gigantes: até os seus 90 anos mais ou menos, ela caminhava todos os dias e tinha uma bicicleta ergométrica para fazer exercícios em casa. Eu, “tinhosa”, estraguei a bicicleta e, aos poucos, em função das dores ela também parou com as caminhadas.

Em contrapartida, seu intelecto continua maravilhoso. Toca piano lindamente, fala francês fluente e estuda português toda semana para não perder o hábito.

É uma das poucas pessoas que sabe que o plural de “bastante” é “bastantes”.  Faz uma mousse de maracujá como ninguém. É mãe de 3 filhos, perdeu um e criou outros dois sozinha. Além de tudo, nós, os 5 netos sempre tiveram sua dedicação e sua ajuda na educação.

Tem também o seu maior orgulho, a medicina. Minha vó é negra, se formou em 1946, quando tinham somente 12 mulheres numa sala de 80 alunos. A única mulher negra se formando na década de 40 no Rio de Janeiro (RJ), você tem noção do que é isso?  Eu não faço ideia!

Quando poucos tinham o privilégio de se formar, viajar de avião, falar outras línguas, minha vó já tinha conhecido grande parte do mundo com suas roupas de alta costura que estão em alta até hoje. Desde que eu era pequeninha lembro da minha vó com sua calça “pantacurt” de linho e sua sandália dourada. Quando tinha uns 3 anos e mal conseguia falar, já a chamava de “totora, totora” (imitando a minha mãe que a chamava de “doutora”), dando meus primeiros passos atrás da vovó.

Não sei se ela sabe o quanto eu a admiro, nós nos vemos pouco e temos nos falado menos… Nossos assuntos estão mais limitados pela distância.

No entanto, depois da infância, ainda busquei dar outros passos maiores, seguindo os rastros dela. Tentei vestibular para medicina, fiz aulas de piano, desbravei vários lugares do mundo e comecei a estudar francês pelo aplicativo “duolinguo”. Não fiz a faculdade de medicina, porque esse não era meu caminho – piadas a parte – tinha medo de esquecer um bisturi dentro do paciente.

Para o bem da humanidade, estudei psicologia, não falo francês fluente e nem sou tão boa no piano. Sou boa em outras coisas e me sinto feliz. Só gostaria que ela e que todas nossas ancestrais soubessem o quanto a força, a coragem e a garra de mulheres assim vão para sempre ser inspiração! Que o sangue dessas guerreiras continue correndo em nossas veias, nunca seja esquecido e seja para sempre honrado!

Juliana W. Soeiro
Psicóloga – CRP 07/26220
(51) 989.864.043

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