Por que os seios de Maria Casadevall (ou de qualquer outra mulher) incomodam tanto?

Por que os seios de Maria Casadevall (ou de qualquer outra mulher) incomodam tanto?

Pré-Carnaval, ânimos aflorados, excitação pelo feriado mais almejado por grande parte dos brasileiros, cenário político conturbado, quebra de padrões, tensões sociais e comportamentais… Listei todos esses fatores para tentar entender por qual motivo os seios à mostra da atriz global Maria Casadevall incomodaram tanto? Será que foi pela possível motivação política do ato, será que foi pela nudez em si, será que estamos vivendo num país cheio de “fiscais dos seios alheios” ou será que uma mulher que se posiciona definitivamente incomoda?

Pessoalmente falando, acredito que existam outras formas de se manifestar e, até mesmo de militar, que não mostrando o corpo. Motivada por uma carga cultural e histórica, meu posicionamento enquanto mulher negra é de sempre me manter um passo a frente, me protegendo, porém sempre na militância. No entanto, minha militância nada tem a ver com a exposição do meu corpo, já tão objetificado e sexualizado pela história da colonização do nosso país. Afinal, quem nunca ouviu frases como “da cor do pecado”, “morena quente” e por aí vai? Logo, não me coloco em situações em que certamente meu corpo será motivo de objeto.

Porém, entendo que o carnaval brasileiro é um movimento totalmente macro, político, social, econômico (definitivamente), que resulta da herança do povo negro, que dentre tantas outras maneiras, utilizou o carnaval como sua expressão identitária. Nesse viés, acredito que o “manifesto” de Maria Casadevall seja completamente aceito e condizente com essa incrível liberdade de expressão e exercício da nossa democracia que é o Carnaval.

Ainda, entendo perfeitamente o argumento de tantas outras irmãs que, assim como eu, militam por tantas outras coisas… Seja por igualdade de gênero e racial, ou igualdade de gênero e social. Mas o meu questionamento é no sentido de te fazer pensar em por que o seio à mostra da tal atriz é tão repudiado, mas o corpo sarado de biquíni da moça que faz o comercial da cerveja é exaltado? Seguindo essa lógica não seriam ambas objetificadas? E as moças que desfilam nas escolas de samba? Também não estariam utilizando seu corpo como ferramenta da sua liberdade de expressão?

O ponto em questão é normalização da nossa nudez. Isto é, vivemos numa sociedade patriarcal, por esse motivo, a nudez feminina não é aceita, ao contrário, é sexualizada. Ocorre que chegamos ao ponto em que uma mãe amamentar seu filho em público vira motivo de revolta, porém, quando uma mulher sai completamente nua na capa da revista masculina, essa é promovida ao título de “musa”, “Sexy Symbol”! Percebem o equívoco?

Portanto, a grande questão é não deixarmos que sejamos mais uma vez rotuladas e hiper sexualizadas. Carnaval, como referido antes, é sim um movimento político. Por ser um movimento político, devemos entender sua proporção e, até mesmo, sua raiz inicial. Acredito que o intuito da tal atriz foi justamente chocar nossos olhos já tão míopes, para algo que deveria ser normal e não objetificado. É perfeitamente compreensível entender o argumento do seu lugar de privilégio. Tanto é, que a própria moça deu uma declaração no sentindo de entender que muitas outras mulheres não têm os mesmos privilégios que ela, ou seja, de uma mulher branca, de classe alta, figura pública e por aí vai. Conforme dito por ela, o Carnaval é “um movimento de libertação, de protesto e de resistência”.

De fato, é! Dessa forma, que tal irmos além? Que tal promovermos uma reflexão sobre todos esses comportamentos ultrapassados? Que tal entendermos que empoderamento também implica em motivar outras mulheres a exaltar suas conquistas e sua forma mais genuína de ser? Que tal se todas juntas, nos déssemos conta de que somos mais que um acessório carnavalesco? Afinal, como dito pela icônica Rita Lee “Nem… Toda a brasileira é bunda”! Vou além e digo que definitivamente não somos apenas uma bunda… Ou um seio.

Fonte da imagem: Paraná Online

Por Amanda Alves Dias Rodrigues

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