É necessária uma Nação de Hermiones

É necessária uma Nação de Hermiones

“Tornei-me feminista porque queria ajudar minhas filhas, outras mulheres e a mim mesma a aspirar a algo a mais do que um lugar atrás de um homem” Faith Ringgold.

Início com essa reflexão da artista (porque ela é escritora, escultora, pintora e artista performática), Faith Ringgold, que muito me fez pensar sobre algo tão importante não só para mim, mas para tantas outras mulheres, que um dia foram meninas. Estou falando da importância do legado, que é algo que atravessa gerações, ultrapassa o tempo e, até mesmo, a vida.

Diante disso, passei a refletir sobre tantas distorções que hoje estão sendo perpetuadas, com o intuito de invalidar movimentos tão importantes para o Estado Democrático, como, por exemplo, os movimentos estudantis, que resistiram bravamente a um dos capítulos mais obscuros da nosso história, que foi o regime ditatorial, até os movimentos pelos direitos civis, que vão desde Mandela, até Martin Luther King, chegando a Zumbi dos Palmares, Dandara e Teresa de Benguela. Todos esses movimentos lutaram por direitos que nasceram conosco e que nos foram retirados. Todos eles vieram precedidos de tantos outros que, anos antes, lutaram para que estes pudessem também protestar contra sistemas e ideologias opressoras.

Dentro desses movimentos deslegitimados, temos sempre o movimento Feminista, que em suma luta por equidade entre os gêneros. Nessa luta, inclui-se equidade social, racial, econômica e emocional. Porém, ao contrário das premissas feministas, temos uma verdadeira legião que, arbitrariamente, define feminismo como sinônimo para o machismo. Isto é, o homem em submissão à mulher, o que além de absurdo, também demonstra a importância do saber e da informação.

Felizmente, percebo uma onda tão forte de mulheres em diferentes idades e classes, que entendem a importância do legado deixado por todas as mulheres que vieram antes delas. Percebo que meninas com 11 anos de idade já estão quebrando estereótipos femininos criados pela cultura patriarcal, tão forte nos países latinos.

Na minha família, vejo as mais novas se informando, lendo, pondo em prática pautas abordadas pelo feminismo, o que me faz além de muito orgulhosa, esperançosa em dias melhores. Quando vejo meninas de 11 anos falando que podem sim, ser super-heroínas como as da Marvel, sinto que o legado construído por todas as mulheres que foram corajosas o suficiente para mudar o mundo, se reafirma.

Outro dia vi uma foto de uma menina em uma marcha nos EUA, em que ela segurava um cartaz dizendo que era necessária uma “Nação de Hermiones” (referência à personagem Hermione da franquia Harry Potter). Percebem aí a importância do legado? Olha que icônico o legado criado pela escritora J.K Rowling, a partir do momento que cria essa personagem tão forte, astuta e independente como a nossa Hermione. Não só para mim, que cresci na “Era Potter”, mas para meninas como as minhas primas, que estão crescendo (e para as que cresceram) num mundo ainda marcado pelo sexismo, mas repleto de referências como essa, sinto que cada vez mais devemos exaltar a importância desses símbolos.

Genuinamente acredito que é de suma importância reafirmar toda a luta que as gerações anteriores as nossas travaram para garantir direitos que já faziam parte da nossa vida desde o dia em que nascemos. Talvez seja como plantar uma sementinha em cada menina, para que elas tenham certeza de que o futuro que as espera pode ser aquele futuro idealizado pelas nossas bisavós, avós, mães e tias.

 Li outro dia um post em referência ao Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, instituído pela ONU, que dizia assim “Nós somos a concretização dos sonhos mais distantes das nossas ancestrais”. Fiquei profundamente tocada com o que isso representa, porque lembrei da trajetória das minhas avós, que cresceram numa época em que suas vozes não tinham os mesmos amplificadores que hoje temos. E, mesmo assim, na sua simplicidade, elas foram feministas sem nunca terem ouvido falar do termo. Minha avó paterna casou-se aos 17 anos com um homem dez anos mais velho, meu avô.  Ela sempre me contava que não casou inicialmente por amor, mas porque era o que se esperava dela no auge dos seus 17 anos. Felizmente eles tiveram um casamento feliz, tiveram filhos e netos. Ela trabalhou por anos cuidando da casa dos outros e, após o seu dia exaustivo, desempenhava seu outro trabalho, que era cuidar da sua família.  Ela era uma mulher absurdamente vaidosa e afetiva, que mesmo sem saber, rompeu o tabu de que uma mulher não deveria frequentar um bar desacompanhada. Ao contrário, minhas melhores memórias dela são no seu bar preferido, bebendo sua cervejinha, ouvindo uma música daquelas máquinas em que você colocava uma moeda e escolhia a canção.

Minha avó materna foi criada apenas pela mãe, casou-se a primeira vez com aproximadamente 15 anos e, decidida a romper com um relacionamento que não era o que ela queria, enfrentou o estereótipo da mulher “desquitada” e se separou. Anos depois casou-se novamente com o meu avô. Apesar de ter construído sua família, de ter trabalhado fora, de ter a responsabilidade de criar os filhos, cuidar da casa, ela sempre frisou a importância de sermos independentes financeiramente e de estudarmos.

Quando penso na minha trajetória acadêmica, penso na importância que elas tiveram na minha vida e na construção da mulher que hoje eu sou. Quando penso em legado, penso em situações como essas, que me fazem ser absurdamente grata por ter tido esse legado na minha formação.

De fato, somos a concretização dos sonhos mais distantes das nossas ancestrais (todas nós, independente de etnia ou credo). Já parou pra pensar em como devia ser difícil não ter o direito de falar, de votar, de dirigir, de estudar, de não querer casar ou ter filhos? Já parou pra pensar que as mulheres que vieram antes de nós não podiam fazer coisas que para nós são tão triviais?

Essas mulheres dedicaram suas vidas com único objetivo de deixar um legado de luta, de força e determinação paras as gerações que as sucederiam. Sinto orgulho em fazer parte disso e de presenciar as meninas que estão vindo depois delas valorizarem e entenderem a importância desse legado.

Ao finalizar, gostaria não somente de agradecer a todas essas guerreiras que nos antecederam, mas também exaltar essa nova geração de meninas, como as minhas primas, que tanto me enchem de orgulho quando  não se importam em ter uma opinião forte, mesmo que isso seja com apenas 9 anos de idade, quando entendem que sua vaidade não está condicionada a atrair atenção de um menino, mas sim com sua autoestima, quando são corajosas o suficiente para trabalhar em uma jornada exaustiva e ainda assim ser uma ótima mãe, ou simplesmente quando quebram o estereótipo de que 1º: Mulheres não devem beber em público, 2º: Mulheres devem ser discretas e 3º: Mulheres  precisam seguir padrões já existentes.

Vocês fazem parte da concretização dos sonhos das nossas ancestrais.

Por Amanda Alves Rodrigues

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