Será que existe o tal “Instinto Materno”?

Será que existe o tal “Instinto Materno”?

“Quero ser mãe um dia?” Quantas vezes você já se perguntou se gostaria de vivenciar a maternidade, se sua vida mudaria drasticamente ou se isso era apenas um daqueles papos das nossas mães para “assustar”? Quantas vezes pesou os prós e contras? E quantas vezes se sentiu culpada por fazer essas ponderações? Viu só? Como conseguimos viver cercadas por tantas dúvidas, tantas imposições e tantos julgamentos? Por que devemos escolher entre ser uma ótima mãe ou uma ótima profissional? Entre ter “vida social” ou uma rotina caótica? Será que não podemos conciliar um pouco dos dois mundos? Já parou pra pensar que essa sabatina existencial pode estar associada a toda pressão que implica ser mulher?

Todas essas questões passam pela minha cabeça e sei que passam pela cabeça das mulheres que, assim como eu, ainda não são mães. Além disso, existem também aquelas que definitivamente não almejam a maternidade, ou as que desejam se tornar mãe, mas sentem toda a pressão que a maternidade carrega. Apesar de me enquadrar na última categoria, penso em como esse meu medo está associado às imposições que sofremos durante anos, tendo em vista que fomos criadas em um mundo que por muito tempo nos viu como seres predestinados a dar luz a vidas, a cuidar dessas novas vidas geradas por nossos corpos férteis e nos responsabilizarmos por estes seres. Esse era o nosso papel principal, se não o único.

Anos depois, a sociedade mudou, a configuração familiar mudou e o papel da mulher dentro do leito familiar também. Hoje, além do papel materno, somos cobradas para nos destacarmos em nossos ambientes de trabalho ou de estudo. Temos quase que uma imposição velada para vestir a armadura de “Super Mulher” e ser a mãe, a profissional, a gostosona, a equilibrada, a esposa/namorada perfeita e por aí vai. É muita coisa pra administrar, não acham?

Diante de tudo isso, fico me questionando como é possível assimilar todas essas imposições e informações? Como não temer por algo desconhecido para nós, as que ainda não são mães? Sei que tudo isso também te assusta, principalmente quando começa a pensar em lidar com todas essas questões. Porém, ao mesmo tempo, penso que muitas dessas nossas aflições quanto ao desconhecido mundo da maternidade estão associadas à falta de suporte, de compreensão e de aceitação de cada escolha, seja ela qual for. Acredito que uma das consequências disso seja essa sensação de estar sozinho, sem apoio algum, sem falar da eterna cobrança consigo.

No entanto, saliento que quando falo de solidão, não significa que você não tenha um parceiro(a) ou apoio familiar, apesar de vivermos num dos países com maior número de “mães solo”.  Nesse caso, falo especificamente da incapacidade de dividir, de compartilhar vivências que, certamente, poderiam contribuir para a desconstrução dessa romantização da maternidade, de ambos os lados.

Felizmente tenho percebido uma mudança nesse sentido e me deparado com movimentos intimista e inclusivo, de homens e mulheres, no qual o suporte é algo em comum. Temos acompanhado o crescimento de redes de apoio que estão desconstruindo essa idealização lúdica e utópica de maternidade, o que nos faz sentir menos culpadas quando nos deparamos com exemplos reais e próximos ao que estamos vivendo. Acredito que dessa forma, futuramente, temas como a maternidade não serão vistos por nós, mulheres sem filhos, como um bicho de sete cabeças. Ainda, acredito que a maternidade, ou a ausência dela, não será motivo de julgamento, mas de debate, inclusão e aceitação no sentido mais literal da palavra.

Quero poder presenciar esse avanço daqui há dez anos. Mas, acima de tudo, quero presenciar nossa libertação de todos esses estereótipos e padrões impostos, para que possamos viver essa dádiva que é ter o poder de gerar outra vida, caso seja essa a nossa escolha. Definitivamente penso que devemos destruir essa ideia, no mínimo, ultrapassada, de que nascemos biologicamente para gerar filhos. O fato de possuirmos os “atributos” para a concepção, não significa que isso seja fator determinante ou uma obrigação. Nessa linha, precisamos entender que uma mulher não deixa de ser “MULHER” quando opta por não ter filhos, ou, ainda quando opta por uma cesárea, por exemplo! Acreditem, existem julgamentos até na escolha da melhor maneira de dar à luz!

Ao encontro disso, penso sempre na narrativa distópica de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale – O conto da Aia. Inicialmente julguei absurdo tudo o que era retratado naquele cenário tão irreal, com base nos avanços femininos dos últimos anos. Porém, com um olhar mais atento, entendi a metáfora por trás do enredo, isto é, a condição feminina daquela narrativa nada mais é do que a personificação do imaginário de uma grande cartela de pessoas da nossa sociedade, que nos enxerga apenas como úteros ambulantes, destinados a cumprir com sua obrigação, isto é, procriar. É forte, eu sei, mas infelizmente não é tão distópico ou distante da atualidade.

Sei que a ideia de gravidez que nos foi ensinada é por vezes fantasiosa e irreal, mas acho que se pudermos compartilhar nossas experiências de forma honesta e realista, o número de mulheres que se encontram nessa encruzilhada existencialista e emocional certamente diminuirá. Afinal, sejamos honestas, nem todas as mulheres são iguais e nem todas as gestações são similares. Então, minhas irmãs, que possamos nos permitir aceitar essas diferenças e não nos basearmos em “modelos” fora de nossa realidade. Que tal utilizar cada experiência como um novo “parâmetro” para àquela que talvez venha a enfrentar os mesmos desafios que você? Será que assim não iremos promover uma ruptura desse ciclo vicioso de individualismos? Que tal rompermos com essa supressão de informações que poderiam ser de grande utilidade para tantas outras mulheres?

Ainda nesse sentido, será que já não passou da hora de entendermos que nenhuma de nós nasceu predestinada, imbuída ou geneticamente programada para absolutamente nada? Questiono se necessariamente uma mulher que não sente o desejo de ser mãe, deve ser vista como alguém incapaz de amar? Será que não existem outras maneiras de espalhar esse amor?

Da mesma forma, questiono se todas as mulheres que são mães, seja por opção ou não, automaticamente, estão classificadas como extremamente amorosas, zelosas ou completas? Percebem o equívoco das rotulações? Olha como estamos caindo nas armadilhas do patriarcado, quando classificamos e julgamos as escolhas de outras mulheres, com base em conceitos arcaicos e fundamentalistas.

  Que tal ampliarmos nossas concepções, estender e compartilhar nossas experiências, ouvir e assimilar a vivência da outra, com o único intuito de estabelecer a nossa tão almejada liberdade de escolha. Vamos todas juntas?

Amanda Alves Dias Rodrigues

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *