Pós-Feminismo: Sororidade ideológica não é sororidade

Pós-Feminismo: Sororidade ideológica não é sororidade

Temos de aprender a viver juntos como irmãos ou vamos perecer juntos como tolos.

– Martin Luther King Jr.

A sororidade poderia ser um importante mecanismo para a promoção da solidariedade entre as mulheres. Elas, de fato, carecem culturalmente desse vínculo social. Desde cedo são treinadas em “jogos sociais” competitivos onde só uma pode vencer e não o conjunto – ao contrário do que acontece com os homens.¹ Desde os concursos de beleza até a conquista do marido, a frágil união entre elas já era apontada por Simone de Beauvoir, quando diz: “os proletários dizem nós, os negros dizem nós, as mulheres – salvo em certos congressos que permanecem manifestações abstratas – não dizem nós. Isso porque não têm, como os proletários, uma solidariedade de interesses”

Eis que surge a ideia feminista contemporânea de sororidade. Ela parecia, enfim, atacar esse problema sociocultural, mas infelizmente, na prática, a ideia apresenta uma contradição insolúvel. Pois a sororidade feminista parece ser válida apenas para as mulheres alinhadas com a esquerda progressista. Ao que tudo indica tal irmandade não se estende às mulheres apartidárias, que sejam de direita ou que detenham algum privilégio econômico e mesmo estético. No limite a proclamada sororidade não é uma sororidade de fato, mas de um grupo fechado que exige uma conversão moral e ideológica para que a postulante seja alvo da empatia alheia.

Em outras palavras, é mais importante o alinhamento ideológico do que o fato de sermos mulheres em comum. Nessa direção a vinculação do feminismo à esquerda torna-se um entrave, colocando em segundo plano uma aliança ampla entre todas as mulheres. Para que o feminismo seja, verdadeiramente, um lugar acolhedor para as mulheres é preciso que ele amplie seu espectro ideológico sob o risco de não conseguir abarcar as diversas formas de ser mulher.

Se, por um lado, não é ilegítimo que as feministas assumam claramente as exigências partidárias e ideológicas do seu grupo, por outro, não é honesto tentar obscurecer e amenizar tais vinculações sob o imperativo de que “todas tenhamos que ser feministas”, quando isso implica, sorrateiramente, uma conversão partidária. É nessa direção que me parece muito pertinente a crítica de Camille Paglia, quando afirma que “o feminismo se tornou um dogma, uma religião”.

Por isso é importante perguntar: será que é apenas pela via do feminismo que conseguiremos avançar na ampliação dos laços entre as mulheres? Defendo sempre que não. Há muitos caminhos para se chegar à Roma. Alguns, inclusive, podem ser mais eficazes do que a via partidária/ideológica. Mais do que um fechamento identitário, que tem gerado o sectarismo, acredito que devemos buscar um novo humanismo. O “novo” está na tentativa de conjugar as novas demandas de individuação, dos sujeitos particulares, com os seus direitos universais e sua responsabilidade com os outros. Uma ideia que chama para uma empatia ampliada nas relações humanas, que consiga ao mesmo tempo respeitar as trajetórias individuais e estabelecer uma ligação entre nós, que chamei de individumanismo³. Ideia que visa ultrapassar o impasse da intolerância identitária para recompor um novo horizonte de inteligibilidade e pontos de intercessão não só entre as mulheres, mas entre as pessoas. Uma irmandade para além do sexo, da raça e das etnias: a humana.

Por: Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, mestre em Comunicação pela UFMG.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *