Parem de pedir que as mulheres sorriam!

Parem de pedir que as mulheres sorriam!

“Por que você não sorri mais?” Qual mulher nunca ouviu essa frase? Diante dessa pergunta que é, no mínimo, dúbia, sempre me questionei por qual motivo eu deveria estar sorrindo o tempo todo. Afinal, ninguém sorri constantemente, o que não implica uma infelicidade eterna ou um estado de mau humor crônico. Ao contrário, sempre achei muito estranho, pra não dizer assustador, essas pessoas que não demonstram suas reais emoções.

Lembro que percebi a carga por trás dessa pergunta (que sempre me foi feita, mesmo na infância), quando assisti pela primeira vez o filme “Mulheres Perfeitas”, lançado em 2004, quando eu tinha apenas 13 anos de idade. Na época, mesmo que eu fosse apenas uma adolescente ainda sem saber muito sobre a vida, senti uma sensação tão estranha ao ver aquelas mulheres que sorriam mecanicamente, sempre com os cabelos perfeitamente arrumados, vestidos cuidadosamente alinhados, sem falar no comportamento robótico, que causava ainda mais medo.

Na época eu não compreendia muito bem a sátira/ironia por trás do enredo principal do filme, mas já sabia que aquele comportamento ali retratado como “normal”, podia ser tudo, menos normal. Isso foi há 15 anos e, mesmo hoje, diante de toda a informação e globalização do mundo, aquele filme lá de 2004 ainda é relevante e atual.

Nesse sentido, temos o recém lançado “Capitã Marvel”, estrelado pela atriz Brie Larson. Num primeiro momento as principais críticas ao filme não foram quanto ao enredo, figurino ou atuação da atriz, mas sim sobre o porquê a heroína não sorria? Mas afinal, porque ela deveria sorrir o tempo todo? Não somos assim, então por qual motivo se esperaria que a personagem vivida por Brie fosse?

Em resposta, uma das diretoras do filme, Anna Boden, disse que a intenção era justamente essa. Ou seja, fazer com que as mulheres/meninas que fossem assistir ao filme se identificassem com comportamentos/situações que fazem parte do cotidiano das mulheres, como a necessidade de nos ver alegres e serviçais a todo o momento, mesmo em um gênero que claramente não se exige isso, como o dos super-heróis.

Diante disso, temos claramente a questão do estereótipo, tão forte na nossa sociedade. Estranhamente desenvolvemos uma necessidade de rotular tudo e a todos. Rotulamos nossos relacionamentos, nossas emoções, nossos projetos pessoais e rotulamos as pessoas.

Quando falamos em estereótipos, nós mulheres, desde que o mundo existe, temos de lidar com as mais diversas rotulações que nos são impostas ao longa de nossas vidas. Quando você é mãe, automaticamente, é taxada de sentimental, maternal demais. Caso não deseje ser mãe, automaticamente é taxada de insensível ou fria. Para as solteiras convictas, tem-se o estereótipo da mulher vulgar, promiscua e por aí vai.

Para nós, mulheres negras, existem tantos estereótipos que fica até difícil listar e escolher um. Porém, acredito que os que mais me marcaram foram os rótulos relacionados a hiper sexualização da mulher negra, ou melhor, do seu corpo, e o estereótipo da “Negra Invocada”, que remete ao nosso suposto mau humor. Arrisco afirmar que quase todas as mulheres negras que eu conheço (provavelmente as que não conheço também), já foram taxadas de “Emburradas”, “Temperamentais”, “Invocadas”. Porém, o que sempre foi muito claro para mim é que não importa o que nós façamos, sempre existirão os malditos rótulos. Mas afinal, porque, de fato, eu devo sorrir constantemente? Por que devo estar sempre animada, disposta e pronta para servir?

Seguindo essa linha, a jornalista americana Jéssica Bennett escreveu o “Clube da Luta Feminista”, que fala muito sobre as rotulações que sofremos. O livro serve como uma espécie de manual para lutarmos contra o machismo corporativo, retratando todos os rótulos que nos são impostos no ambiente de trabalho. De modo muito perspicaz, ela também aborda a questão de raça, isto é, o racismo estrutural escondido por trás de rótulos como o da “Negra Invocada”.

Ao encontro disso, a autora cita uma entrevista da atriz Amandla Stenberg, em que ela aborda justamente esse ponto. Na ocasião, a atriz falava sobre sua fama de ser “brava demais”. Em resposta ao rótulo, ela disse o seguinte: “Não sou uma pessoa brava. Sou uma pessoa com opiniões fortes”. A partir desse momento tive uma espécie de epifania sobre toda essa tipificação a qual somos submetidas. Isto é, não é uma questão simples de nomear/rotular, mas algo que vai muito mais além.

Como no filme “Mulheres Perfeitas”, a questão por trás desses estereótipos  tem muito mais a ver com dominação, poder e invalidação. Por muito tempo, me sentia ofendida quando alguém falava que eu tinha um jeito “autoritário”, que eu era uma pessoa de “personalidade forte” ou que eu não sorria muito. Durante boa parte da minha vida, me sentia obrigada a dar sorrisos em ocasiões em que eu não queria sorrir. Por várias vezes senti que devia adotar um jeito mais “amável” do que o meu próprio jeito de ser, porque dessa forma eu seria vista de uma maneira melhor.

Porém, a grande verdade é que ninguém é perfeito, ninguém vai conseguir agradar a todos ou sorrir o tempo inteiro. Quando finalmente entendi que não era o meu temperamento forte ou o meu status de “Negra Invocada” que incomodava, mas sim o fato de que desde sempre fui incentivada pela minha mãe a usar e valorizar o poder da minha voz, pude me libertar de certas “convenções sociais” que infelizmente ainda fazem parte das nossas vidas. Na verdade, entendi que o que sempre incomodou foi o fato de que tenho opiniões e que elas são firmes, o que para algumas pessoas pode soar agressivo demais.

Diante de toda essa redescoberta, percebi o quanto nossa voz tem poder. E, justamente, por ser poderosa ela é temida. Porém, muito se lutou para que pudéssemos usá-la livremente, o que nos torna ainda mais responsáveis por mantê-la sempre altiva. Então, definitivamente, não somos obrigadas a sorrir constantemente, a usar um tom de voz compassivo e moderador, ou mudar quem somos, a fim de obter uma aprovação que é equivocada e desnecessária. Quando realmente entendemos que não devemos esconder nossa forma mais genuína de ser, definitivamente nos tornamos livres.

Ainda existe um longo caminho para que uma mulher não precise ponderar suas opiniões para ser “aceita”, mas a verdade é que o ideal de liberdade já é algo enraizado em nossa essência, logo, talvez o mundo não esteja preparado para mulheres extraordinariamente livres, o que de fato não importa, quando nós já assimilamos que nossa liberdade, seja ela qual for, independe que qualquer “ permissão”. Até a próxima!

Amanda Alves Rodrigues

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