Me colori

Me colori

Como eu contei no post anterior, o Caminho está acabando. Faltam alguns dias, talvez três, parei de contar, porque agora os trajetos estão um pouco mais longos e tenho dividido em algumas etapas, diminuindo os dias para a chegada. Eu estava em Palas Del Rei, uma cidadezinha linda há 68 km de Santiago de Compostela. Durmo duas noites no hostel que escolhi porque a temperatura está horrível, faz muito frio e não para de chover. Meu corpo já está um pouco cansado, então decido que ficaria mais um dia na cidade, de baixo das cobertas recuperando o fôlego desses quase 28 dias de caminhada e autoconhecimento.

Na cama, abro meu diário de viagem e começo a ler sobre os primeiros dias e me recordo de situações que já havia me esquecido, pessoas que conheci, coisas que aprendi. Começo a me lembrar de um por um, seus nomes, o que me traziam de novo e suas experiências, eu realmente já estava com saudades daquilo, mesmo antes de tê-lo concluído, mas na verdade era uma sensação de nostalgia e contentamento com tudo o que tinha vivenciado. Meus pés doem, minhas botas estão um caco! Estou com o rosto e apenas a mão esquerda bronzeada, por que era com ela que eu segurava o cajado. Meu cabelo está curtinho, mal consigo prendê-lo, o que deixa ele bem bagunçado. Não uso maquiagem desde que comecei a caminhada, apenas um protetor solar. Nos hostels é bem difícil encontrar espelhos, alguns têm, outros não, então se olhar de forma direta para si era algo que eu já não estava acostumada, quase que um convite para olhar para dentro de si. E não para fora.

Nesse hostel em Palas o espelho era enorme, me arrisco pós-banho a olhar para mim de frente, me encarar, me estranhando muito, mas ao mesmo tempo me compreendo, meu rosto está tomado de sarda, pintas, manchas, até um pouco ressecado devido ao sol, acho que dei uma engordada, meus braços estão mais fortes, minhas pernas também, meu corpo está diferente, mas estava em total sintonia comigo. As mudanças externas eram visíveis, mas as internas, eram bem mais evidentes.

Nesse momento, de olhar-se no espelho, o dia estava cinza e chovia muito. Lembro que tinha um batom vermelho na mochila, perdido por lá. Vou até o banheiro e passo, me olho no espelho e vejo uma mulher mais madura, forte e limpa no sentido de quem deixou muita coisa para traz.

 

O batom coloriu o dia, porque por dentro eu era um arco íris.

Por Gabi

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