Só mais um relato de gênero

Só mais um relato de gênero

A todo instante somos enquadradas em números e estatísticas. Uma em cada três mulheres já sofreram algum tipo de violência. 503 mulheres sofrem agressões físicas a cada hora. Pesquisa da Datafolha divulgada neste ano mostra que 22% das brasileiras sofreram ofensa verbal no ano passado, um total de 12 milhões de mulheres. Além disso, 10% das mulheres sofreram ameaça de violência física, 8% sofreram ofensa sexual, 4% receberam ameaça com faca ou arma de fogo. E ainda: 3% ou 1,4 milhões de mulheres sofreram espancamento ou tentativa de estrangulamento e 1% levou pelo menos um tiro. A pesquisa mostrou que, entre as mulheres que sofreram violência, 52% se calaram. Apenas 11% procuraram uma delegacia da mulher e 13% preferiram o auxílio da família.

Esta semana me senti insegura, impotente e com muita raiva, além do medo em minutos que pareciam uma eternidade.  Estava na parada de ônibus próximo ao Parcão, era por volta das 21h. Alguém aí já pensou – Pois é, mas esta hora e neste local, queria o que? – Só queria ir para casa em segurança e tranquilidade depois de um dia de trabalho. Era meu único jeito de voltar, visto que em outros dias solto mais tarde e daí lá se vai muitos dinheiros em Uber, segunda-feira me dou ao não luxo de voltar de bus. Percebam que o relato do ocorrido nem iniciou e eu já estou me justificando, como se a culpa fosse minha.

Enfim, chegando à parada do ônibus encontro uma mulher, fico feliz por não estar sozinha e por ser ELA. Mas em seguida ela subiu num ônibus e se foi, já fiquei tensa por ficar ali solita, mas tudo bem – sempre com pensamento positivo e fé de que nada de mal vai me acontecer. De repente se aproxima um homem, meio estranho e meio manco – já pensei comigo, qualquer coisa corro e ele não me alcança. Ele chegou sentou e deu “Oi”, respondi, mas mentalmente pedia com fervor que meu bus chegasse. Ele era muito estranho, talvez com algum distúrbio, não sei. Eu estava com medo. Depois do “Oi” seguiu puxando papo, e a primeira pergunta que me fez era se eu tinha namorado, fiquei em choque, e a cada mexida de qualquer parte do corpo dele, um dedo que fosse eu já desconfiada me tremia inteira. Respondi as perguntas e me mantive firme, sem demonstrar o pavor que eu estava sentindo, ele realmente devia ter algum distúrbio e não falava coisa com coisa, o que me deixava bastante assustada.

Por fim, meu ônibus chegou e com louvor o cara não pegou o mesmo bus que eu. Fiquei chateada pensando o quanto me senti vulnerável, com medo que ele fosse me atacar a qualquer segundo, pelo simples fato dele ser homem e eu mulher. E infelizmente as pesquisas nos levam a crer que a qualquer momento nós podemos virar estatística, ser apenas mais uma destes números, sem nome e sem história, apenas gênero.

Por Lua

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